Obstáculos para preparar profissionais para os novos empregos.

04/07/2018 - 18h48

“Choca me ver o desbarato dos recursos públicos para educação,
dispensados em subvenções de toda natureza a atividades
educacionais, sem nexo nem ordem, puramente paternalistas ou
francamente eleitoreiras”.

Anísio Teixeira, educador e escritor, em 15/04/1958.


Muito tem se dito sobre a necessidade da indústria brasileira incorporar novas
tecnologias em seus processos de produção, para aumentar sua capacidade de
competir numa economia globalizada. Para tal incorporação, a formação de
profissionais com novos perfis é fundamental, mas encontra vários problemas que
precisam ser urgentemente superados.

Os obstáculos começam em âmbito governamental. Não diretrizes claras sobre as
áreas que devem ser consideradas prioritárias para a formação profissional. Assim, é
urgente uma solução de convergência das politicas educacional, industrial e
tecnológica, para orientação e para incentivos dos cursos nas áreas consideradas
estratégicas para o país. Precisamos ter um Plano de Nação, um projeto para o nosso
futuro.

Ainda, em âmbito do governo, outro grande obstáculo é a existências do Catálogo
Nacional de Cursos Técnicos do Ministério da Educação, que limita a oferta dos cursos
técnicos, determinando para cada um deles denominação, carga horária mínima e
perfil profissional de conclusão.

Para atualização da relação de cursos, o Ministério da Educação recebe propostas
periodicamente. Cada proposta é submetida à apreciação do Comitê Nacional de
Políticas de Educação profissional e Tecnológica (CONPEP) e encaminhada ao Conselho
Nacional de Educação (CNE), para emissão de parecer, a ser homologado pelo ministro
da Educação e, posteriormente, publicado na forma de resolução.


A única abertura dada às Escolas para agilizar o processo é a oferta de do curso técnico
experimental. Porém, essa solução é temporária, porque o curso só poderá ter
continuidade se for reconhecido pelo órgão normativo do sistema de ensino em três
anos e incluído no Catalogo Nacional dos Cursos Técnicos no prazo de cinco anos.
Desta forma, o MEC impõe uma burocracia inimaginável numa realidade dinâmica e
que exige rápida revisão e atualização dos cursos e respectivos currículos. Ao invés de
facilitar a adequação da oferta de cursos técnicos, as normas vigentes criam barreiras
ou protelam iniciativas fundamentais para que as empresas tenham profissionais com
perfil adequado.

E quais são esses profissionais que terão maiores oportunidades de emprego nas
empresas com as novas tecnologias?

Nossa experiência de acompanhamento dos movimentos de mercado de trabalho
confirma a tendência apontada por estudo do Federal Reserve Bank of St. Louis, que
estima crescimento dos empregos nas categorias de trabalhos manual e cognitivo não
rotineiros.

Assim, estão em alta ocupações já existentes como encanador e confeiteiro, que
trabalham com destreza e criatividade aliadas a competências técnicas, que podem
variar de uma para outra tarefa. Também estão em alta novas ocupações, como
especialista em inteligência artificial, criadores de games com aplicações industriais,
entre outras.

No outro extremo, com tendência de declínio de empregos, estão os trabalhos
manuais e cognitivos rotineiros. Quanto mais repetitivos e padronizados, mais fácil sua
substituição por processos automatizados.

E, então, chegamos ao obstáculo mais sério. A formação profissional só cumprirá sua
missão de preparar esses profissionais, que terão mais oportunidades de emprego, se
for alicerçada numa sólida Educação de Básica.

Durante essa Educação Básica, os alunos devem ter oportunidades de compreender,
contextualizar, pesquisar e aplicar conhecimentos e conceitos; descobrir a beleza
inerente a cada criação e a cada processo de produção; buscar sempre atualização e
novas aprendizagens; ser critico e questionador em uma realidade dinâmica e em
permanente transformação.

Ainda na Educação Básica, é preciso considerar competências interpessoais (trabalhar
em equipe, desenvolver o senso de cooperação, respeito e valorização das diferenças
etc.) e intrapessoais (como desenvolver a capacidade de lidar com emoções e ter
autocritica).

É importante investir – como já fizemos, com êxito – na expansão dessa proposta
educacional, voltada para uma nova sociedade e para um novo mundo do trabalho.
Chega de gastos em programas pontuais e parciais, descolados da realidade. Chega de
constatar perda de recursos, em consequência dos mesmos problemas levantados por
Anísio Teixeira há exatos 60 anos. Um mundo em mudança exige uma nova educação.
Walter Vicioni Gonçalves


Diretor Estadual do SENAI e Superintendente Estadual do SESI do Estado de São Paulo,
licenciado até 07/10/2018.