Livro do Baile do Carmo fortalece luta pela igualdade racial

Fotógrafo: João Carlos
28/10/2014 - 01h31

Igualdade racial

O prefeito Marcelo Barbieri destacou que o livro do Baile do Carmo - memória, sociabilidade, e identidade étnico-racial em Araraquara, da autora Valéria Pereira Tenório, fortalece a luta pela igualdade racial. O lançamento da obra aconteceu nessa sexta-feira (24), no Palacete das Rosas Jornalista Paulo AC Silva. 

“Um dia histórico para a cidade. Ainda é cedo para dimensionar a repercussão deste trabalho elaborado com profundidade, dedicação, seriedade, que retrata o baile centenário de alto valor para cultura de nossa cidade”, enfatizou Marcelo ao saudar o prefeito Francisco Dumont, de Matão, parceiro na Associação de Prefeitos da Região Central (Aprec). 

O Baile do Carmo, que ocorre no mês de julho desde a metade do século XX, transcende nossas fronteiras e tem apoio do Centro Afro, órgão da Secretaria Municipal de Governo, completou Marcelo Barbieri. 

Para o prefeito José Francisco Dumont, de Matão, o Baile do Carmo é muito divulgado na região e a autora (Valéria Tenório) é uma forte parceira da administração municipal atuando no Instituto de Ensino Superior de Matão. 

O jeito de Valéria escrever encanta nas primeiras páginas e a obra inédita sobre o Baile do Carmo eterniza uma história de resistência do movimento negro com raízes da nossa cultura, afirma a coordenadora de Políticas de Promoção da Igualdade Racial de Araraquara, Alessandra de Cássia Laurindo. 

O presidente da Associação Para Preservação, Resistência e Resgate da Cultura Afrobrasileira de Araraquara, Daniel Martins, o Costa, enalteceu o alcance nacional do Baile do Carmo, ao lembrar que certa vez no Rio de Janeiro o Neguinho da Beija Flor citou o baile de Araraquara para milhares de sambista num ensaio da escola. “Portanto este trabalho da Valéria iniciado há 10 anos valoriza nossa luta”, relatou Costa. 

A liderança dos conselheiros de Araraquara e Matão, Alessandra Laurindo e João Bento, respectivamente, foram alvos de elogios por parte do presidente do Conselho Estadual de Participação em Desenvolvimento da Comunidade Negra, Ivan Lima, que se comprometeu em divulgar o livro do Baile do Carmo. 

Os professores universitários Fernando Passos, da Uniara, e Álvaro Guedes, da Unesp, também prestigiaram o evento, que contou com a presença de lideranças do movimento negro na região, inclusive a “velha guarda” do Baile do Carmo. 

Por dentro da obra 

Valéria Tenório explanou que o livro surgiu a partir da pesquisa de mestrado em Sociologia pela Unesp de Araraquara, entre 2001 e 2005, e reconta parte da história da população negra da cidade e do Interior paulista. 

A autora argumenta que os registros oficiais da história de Araraquara ignoram a presença da população negra e suas manifestações. Por isso, o estudo do Baile do Carmo é importante para reconstruir uma parte omitida por essa história. “Mais do que um baile realizado uma vez por ano, esse evento demonstra a organização e resistência do negro diante da discriminação e dos preconceitos existentes nesta cidade”, comenta. 

A falta de registros documentais tornou imprescindível vasculhar as memórias de antigos participantes do baile. A utilização da história oral por meio de entrevistas, em torno de 20 depoimentos, foi a forma que Valquíria encontrou para interpretar os momentos em que o Baile se fez presente na vida dos entrevistados, inclusive do aposentado Pérsio Damázio, de 86 anos de idade, que prestigiou o lançamento. 

“Nossa pesquisa buscou compreender o Baile pelo viés da sociabilidade, pelo reconhecimento e identificação proporcionado aos seus participantes, partindo sempre da memória como propiciadora de nossa interpretação”, afirma Valquíria. “Nossa leitura compreende o evento como espaço-tempo de sociabilidade, expressão de uma identidade étnico-racial e lugar privilegiado de memória dos negros nesta cidade”. 

O professor Dagoberto José da Fonseca, da Unesp, orientador e colaborador da obra, observou que Araraquara é uma cidade estratégica no Estado do ponto de vista cultural e político. “O livro abre perspectivas de reconstruirmos nossa história desde o início”, enfatizou Fonseca. 

Mais informações sobre o livro podem ser obtidas no Centro Afro, na Avenida Feijó, 223, telefone (16) 3322-8316.