Carnaval como patrimônio vivo: Bloco Petit PhUÁ leva oficinas de estandartes a públicos em situação de vulnerabilidade

Fotógrafo: Assessoria de Comunicação da Prefeitura
16/07/2026 - 19h12

Contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), projeto “Estandarte: Alma do Bloco | Alegoria da Vida” realizou atividades em quatro instituições de Araraquara, aproximando crianças, idosos, pessoas em situação de rua e a população LGBTQIAPN+ da cultura dos cortejos populares

O estandarte é um dos elementos mais antigos e representativos dos cortejos populares. Antes de ocupar lugar de destaque nos blocos carnavalescos, nas escolas de samba e em outras manifestações festivas, sua presença já marcava procissões, ritos religiosos e celebrações comunitárias, anunciando a saída do sagrado ao encontro do povo.

Entre as diferentes narrativas sobre sua origem, está a tradição das procissões nas quais a imagem do santo deixa o altar para percorrer as ruas junto aos fiéis. À frente do cortejo, o estandarte anuncia sua presença, conduz o percurso e reúne a comunidade ao redor de um símbolo comum de devoção, identidade e pertencimento.

Essa força simbólica permanece viva nas festas do Divino Espírito Santo, folias de reis, congadas, maracatus, blocos carnavalescos e em inúmeras manifestações da cultura popular brasileira. Mais do que um adereço, o estandarte materializa aquilo que é essencialmente imaterial: a memória, os afetos, as crenças, os desejos e a identidade coletiva de um grupo.

Foi a partir dessa compreensão que o Bloco Petit PhUÁ desenvolveu, entre maio e julho de 2026, o projeto “Estandarte: Alma do Bloco | Alegoria da Vida”, contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), na categoria Carnaval. Os recursos da política pública também contribuíram para a realização do Carnaval de 2026 do bloco e possibilitaram a continuidade de ações voltadas à difusão dos saberes, símbolos e práticas que constituem a cultura carnavalesca.

Para Weber Fonseca, um dos fundadores e produtor do Bloco Petit PhUÁ, a existência de políticas públicas é fundamental para a preservação e a transmissão desse patrimônio.

“O patrimônio cultural imaterial vive nas pessoas. Ele não existe sem quem saiba fazer, contar, ensinar e celebrar. As políticas públicas de cultura tornam possível que esses conhecimentos circulem, sejam compartilhados e transmitidos. São elas que ajudam a garantir a continuidade das tradições e permitem que novos grupos também se reconheçam como participantes da vida cultural”, afirma.

Democratização do acesso à cultura - Com o objetivo de ampliar e democratizar o acesso aos bens culturais, o coletivo optou por realizar as oficinas com grupos que, por diferentes condições sociais, econômicas, etárias, domicílio, orientação sexual ou identidade de gênero, nem sempre conseguem acessar plenamente as atividades culturais oferecidas na cidade. “O carnaval é uma festa pública e popular, mas isso não significa que todas as pessoas consigam acessar plenamente os bens culturais que ele produz. O coletivo fez uma escolha consciente por desenvolver essas ações com grupos que enfrentam diferentes situações de vulnerabilidade. Democratizar a cultura também é reconhecer que todas as pessoas têm o direito de celebrar, produzir memória e participar da vida cultural da cidade”, explica Weber.

As ações foram desenvolvidas na Casa de Acolhida Assad-Kan, que atende pessoas em situação de rua; na Vila Vicentina, instituição de longa permanência para idosos; na Sociedade Amigos do Bairro Santa Angelina (SABSA), com crianças atendidas no contraturno escolar; e a última atividade do projeto foi realizada na Casa de Acolhimento LGBTQIAPN+ Ricardo Corrêa da Silva, encerrando, nesta semana, o ciclo iniciado em maio de 2026.

Diálogo e criação - Cada oficina começou com uma roda de conversa sobre a origem, os significados e a presença do estandarte nos ritos religiosos, nas festas populares e no carnaval. Os participantes foram convidados a compreender o objeto como uma representação coletiva capaz de comunicar a identidade de um grupo.

Na sequência, os encontros se transformaram em espaços de escuta e criação. Os participantes conversaram sobre quais sentimentos, desejos, alegrias, experiências e formas de celebração deveriam aparecer no estandarte de cada instituição. A partir dessas trocas, foram escolhidos símbolos, palavras, formas e cores para a produção coletiva das peças.

“Um cortejo é formado por pessoas em movimento e celebração, conduzidas por cantos, sons, cores e elementos alegóricos. Tudo acontece ao mesmo tempo. O estandarte é o ponto para onde o olhar se dirige: ele anuncia quem chega, conduz o grupo e materializa a alma daquela manifestação”, destaca Weber. “Por isso falamos que ele é a alma do bloco. O estandarte corporifica o imaterial”, completa.

Depois da construção dos estandartes, cada oficina foi encerrada com uma experiência lúdica inspirada nos cortejos. O momento permitiu que os participantes experimentassem coletivamente o movimento, a música, a brincadeira e a ocupação simbólica do espaço, compreendendo que o carnaval também se produz no encontro entre os corpos.

Acolhimento em todos os sentidos - Além do envolvimento dos participantes, a receptividade das instituições marcou profundamente a realização do projeto. Gestores, educadores, assistentes, cuidadores e demais profissionais contribuíram para adaptar as atividades às características e necessidades de cada grupo.

“A palavra acolhimento vestiu perfeitamente essa experiência. Fomos acolhidos em todos os sentidos: pelos gestores das instituições, pelos educadores, pelas equipes que abriram as portas e acreditaram na proposta, e sobretudo pelos participantes das oficinas. Cada encontro foi muito generoso e construído com muita disponibilidade para a troca”, relata Weber. Segundo ele, a resposta dos participantes demonstrou como a cultura carnavalesca pode transformar, ainda que temporariamente, as relações estabelecidas no cotidiano.

“É incrível perceber como a carnavalização é contagiante. Ela suspende a lógica cotidiana e cria um tempo de encontro, brincadeira, criação e celebração coletiva. As pessoas se permitem ocupar outros lugares, experimentar outras formas de expressão e se reconhecer como parte de um grupo. É essa potência que faz o carnaval existir durante todo o ano, e não apenas nos dias oficiais da festa”, afirma.

Ao final das atividades, cada instituição passou a contar com os estandartes criados a partir de sua própria identidade. As peças traduzem histórias, afetos, reivindicações, desejos, identidade e símbolos escolhidos pelos participantes, reafirmando o estandarte como uma alegoria viva de pertencimento e expressão coletiva.

Cuidado e imagem - Por envolver pessoas em diferentes situações de vulnerabilidade, o Bloco Petit PhUÁ optou por restringir a divulgação de fotografias que possibilitassem a identificação direta dos participantes. A decisão buscou preservar a privacidade e a dignidade dos grupos, especialmente nos espaços de acolhimento. Na Vila Vicentina, por exemplo, diversas participantes manifestaram vontade de aparecer nas imagens e de mostrar publicamente o trabalho realizado. Mas aqueles que não desejavam ser fotografados puderam se retirar. No caso das crianças, o registro parcial foi apenas para efeito de relatório.

“Muitas pessoas queriam aparecer, fazer selfies, ser vistas e mostrar com orgulho o estandarte que produziram. Isso foi muito bonito e também demonstra o desejo de visibilidade desses participantes. Ao mesmo tempo, entendemos que o cuidado com a imagem das pessoas em situação de vulnerabilidade deveria orientar a comunicação do projeto”, explica Weber.

A concluir o ciclo de oficinas, “Estandarte: Alma do Bloco | Alegoria da Vida”, o bloco reafirma o carnaval como patrimônio cultural vivo, construído por pessoas, gestos, saberes e memórias. Ao aproximar diferentes públicos dos símbolos e práticas dos cortejos populares, o projeto demonstra que o carnaval não se limita ao calendário oficial da festa: ele permanece vivo sempre que uma comunidade se reúne para criar, cantar, brincar, celebrar e produzir coletivamente sua própria representação.

Sobre o Bloco Petit PhuÁ - Fundado em 2017 pelos irmãos Kleber Fonseca e Weber Anselmo Fonseca, junto com seu grupo de familiares e amigos, o Bloco Petit PhuÁ nasceu como uma celebração familiar em homenagem à matriarca Maria Teresa Anselmo Fonseca, a Dona Telei, e rapidamente transformou-se em um persistente movimento de valorização do carnaval de rua em Araraquara. Inspirado na memória de blocos históricos da cidade, como a Banda do Fua e a Turma do Funil, o Petit PhuÁ consolidou-se como um espaço de encontro, convivência e celebração da cultura popular. Ao longo de sua trajetória, tornou-se referência por promover um carnaval democrático, gratuito, intergeracional e inclusivo, reunindo pessoas de todas as idades — de bebês a idosos — e reafirmando o carnaval como patrimônio cultural, expressão de cidadania e instrumento de fortalecimento dos vínculos comunitários. Desde 2025, o cortejo oficial do bloco integra o Calendário Oficial de Eventos do Município de Araraquara, reconhecendo sua relevância para a cultura popular local e sua contribuição para a valorização das tradições carnavalescas da cidade.

Projeto: Estandarte: Alma do Bloco | Alegoria da Vida
Realização: Bloco Petit PhUÁ
Fomento: Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB); Secretaria Municipal de Cultura e Fundart; Prefeitura Municipal de Araraquara; Ministério da Cultura